O vendedor de picolé
Trata-se de fato real
O primeiro cego
Os anos trinta passam glamorosos e ao mesmo tempo marcam grande diferença entre as classes sociais, que não tinham muita opinião na política. Regida sob o domínio do governo constitucionalista de Getúlio Vargas, o tempo parecia não passar.
Numa região mineira chamada Figueira do Rio Doce, hoje município de Governador Valadares, o bairro Figueirinha abrigava extensa zona de prostituição. As casas de meretrício eram feitas de pau a pique, com telhas de coxa, em formato de eira e beira.
Local extremamente pobre, o prostíbulo tinha na frente a sala e aos fundos o abrigo onde a mulher ganhava a vida mediante a venda de seu corpo por migalhas, garantindo-lhe o sustento, e com algum sacrifício lhe sobrava recursos para a aquisição de perfume barato e bijuteria que lhe adornava o corpo.
A mãe do bebê de três meses não teve como interromper a gravidez, agora tendo ao lado o pequenino enrolado por farrapos e outras tralhas ofertadas pela complacência de outras prostitutas, amigas que compartilhavam o ganho fácil. As casas se aparelhavam ligadas uma a outra, à margem da extensa rua sem calçamento. Tinham também a finalidade de alugar para transeuntes e andarilhos. Numa delas se podia ouvir:
— Posso levar você, mas sem o moleque atrás de mim! – dizia o companheiro da mãe, como quem não queria ser molestado.
— O que faço?
— Não é problema meu, você fez, você decide!
O casal não percebia que seu colóquio chamava a atenção de duas pessoas na casa imediatamente ao lado, que a tudo ouviam. Tratava-se de um pedinte e sua companheira, que vagavam em várias cidades mineiras a estender as mãos em busca de moedas. Esforçaram por manter silêncio.
— Não sei o que faço! – adiantava a prostituta, que ansiava sair daquele lugar misérrimo, sustentada pela nova oportunidade que a enchia de ansiedade.
— Não é meu filho e não tenho como sustentar dois. Se quiser, você vem, mas ele fica!
— É que minhas amigas não querem essa criança!
— Ora, o rio está aqui bem perto da gente!
Percebendo que se tratava de homicídio, a mulher se adiantou:
— E a polícia?
O homem que a prostituta tinha como tabua de salvação era renitente e exalava de seus poros forte teor alcoólico.
— E se o corpo boiar? Muita gente me conhece e também o bebê! – salientava a mãe.
— Preste atenção, a gente amarra uma pedra na perna! Ninguém vai descobrir! Vai ter morte rápida! Preso ao fundo, os peixes se encarregam – dizia o homem sem qualquer remorso.
Depois da conversa ter se arrastado por cerca de meia hora, a mãe do pequenino aduziu:
— Tenho muito medo!
— Então deixo você e vou embora!
Cansada da vida miserável naquela prostituição sem fim, a matrona do recém nascido concordou de lançar o pequeno nas águas escuras do Rio Doce. Na casa ao lado, sem embargo de nítida audição, facilitado pelas velhas telhas de barro, que cobriam todo o casario, havia sussurros:
— Quem sabe não é uma oportunidade da gente pegar essa criança? – aduziu a pedinte aos ouvidos do cego, que a tudo ouvia ao som claro que se transpunha às telhas, qual fone de ouvido.
Durante boa parte da noite o casal criminoso traçou toda a trajetória a que deveria fazer, no intuito de lançar às águas o pequeno indefeso. Bem de manhã, os pedintes se aprontaram para fazer a abordagem que maquinaram durante a noite. Aproximaram-se da mãe com o filho ao colo.
— É que, seguinte, nós pernoitamos ao lado e não pudemos deixar de ouvir a conversa de vocês! – dizia Maria Cândida, deixando assustado o casal que se aprontava para assumir o macabro programa arquitetado.
Os dois se entreolharam, agora com medo de haver denúncia ao delegado de polícia. Tratava-se de época em que a bruteza era a prática mais reinante, não se obedecendo a protocolos legais, de modo a abrir inquérito e demais procedimentos formais.
— É que, bem, sabe como é! – gaguejou a mulher, já com a mala e o bebê a tiracolo.
— Não carece agonizar! Nós não vamos caguetar! Só queremos a criança! – afirmou Acelino, amparado por uma bengala, que o auxiliava a andar, escondendo seus olhos inoperantes atrás de óculos escuros.
A mãe ficou pálida. Era mulher de vida, mas não tinha ficha criminal. O casal se entreolhou e resolveu dar a criança, sem delongas. Quem sabe não era essa a melhor solução?
Sem qualquer arrependimento, a mãe estendeu os braços e passou a criança ao colo dos pedintes, que nem se incomodaram de perguntar o nome.
— Pode deixar que a gente cria o menino! Não precisa jogar fora! – dizia Acelino, triunfante na aquisição de sua nova fonte de renda.
Com tudo pronto para a viagem, a prostituta e seu homem se apressaram em desaparecer daquele lugar, deixando ao abandono a criança, agora sob os cuidados do entranho casal.
— Agora a gente tem mais um motivo pra angariar esmola! – retrucou o pedinte, com sorriso de escárnio, adiantando que a situação vai melhorar.
— Sim, vamos pra casa! Lá em Serro a gente vai poder apresentar o moleque pro povo! – salientava dona Candinha.
— Como é que a gente vai chamar esse menino?
— Vamos dar o nome de Manoel, porque é nome fácil! – disse a companheira.
Com a criança nos braços, os pedintes tinham agora nova ferramenta para estender as mãos na mendicância. O tempo passou. Nas andanças pelos municípios, certo dia voltaram ao local fatídico. Nunca mais tiveram notícia da mãe. Simplesmente desapareceram sem dar notícia.
A relação dos novos donos do sobrevivente não era banhada pela harmonia almejada. Volta e meio transferiam golpes no linguajar barato, com rompantes propósitos de se ferirem diante daquela vida de esmolar. Certo dia veio a separação. Dona Candinha partir para outras bandas. Manoel, com cinco anos de idade, era agora quem guiava o moribundo pelas longas trilhas das Minas Gerais.
— “Esmola pro cego”! – esse o refrão que o pequenino aprendera para reunir maior quantia de moeda, carecida pela complacência alheia.
— Vou te dar uma ordem! – impunha a voz grotesca do cego; — Quero que você me diga como é cada mulher que se apiedar de mim! Você me diz se é magra ou de cor, entendido?
Manoel que a tudo ouvia e com idade que lhe dava o básico para a sobrevivência, aprendeu não reclamar e nem fazer perguntas, com medo de apanhar ou de sofrer maus-tratos. Ao contrário, obedecia e informava ao seu dono a descrição de toda mulher que se abeirava para manter conversa.
— E aí, essa mulher que se apiedou de mim é bonita? – ao que o pequeno respondia, com seu pobre linguajar infantil.
Certo dia, o cego pedinte encontrou uma mulher perdida e com ela se juntou para novos programas. Afinal, a vida era gratificante. Era só estender a mão, apresentar o pequeno negro que o acompanhava e levar a vida em nome de Deus. A piedade alheia sustentava o trio, que seguiam por várias cidades.
A nova companheira era mais exigente. Pediu e o cego a deixava em casa, enquanto ele e o pequeno se aventuravam pelas estradas sem fim. Não havia outra renda. Era preciso mendigar. Manoel foi criado com esse perfil. Pedir, andar e esperar, vagando pelas ruas de vários lugares e retornar ao ponto de início. Essa sua única obrigação.
O pequeno andarilho não possuía direitos. Não tinha registro de nascimento. Não sabia o que era brincar. Não era gratificado pela presença de amiguinhos. Manoel era um ninguém, que não sabia distinguir o bem do mal, ou o trabalho do prazer.
Certo dia, nas andanças infindas, Acelino deu uma topada, que lhe custou um hematoma gangrenoso. Brigava muito com o pequeno pedinte, que só possuía ouvidos, diante da arrogância do chefe sem visão. Por vezes sofria puxão de orelha e tapas na cabeça. A ausência de assepsia e de cuidados de higiene fez com que a ferida viesse complicar o sistema cardiovascular. A fraqueza e a inapetência se apresentavam. Surgiram sérios prejuízos à saúde. Agora acamado, o cego passou as atribuições ao pequeno, que mendigava nas ruas por onde passava. Em sua inocência infantil, gritava:
— Eu sou guia de cego, preciso de esmola pro sustento, pelo amor de Deus!
A inocente voz abria os corações de piedade, e não foi difícil para que o pequeno pudesse continuar a angariar recursos para a manutenção do moribundo, que já não mais conseguia sair da cama. Com o tempo, Acelino passou a sofrer freqüentes desmaios. A morte lhe visitou mais cedo e o diagnóstico para o sepultamento foi infecção generalizada.
O pequeno Manoel ficou sob os cuidados da mulher do falecido, que o recebeu como herança maldita, já que ela não tinha o hábito de mendigar. Foi acolhida por uma instituição denominada Conferência de São Vicente de Paulo, cuja complacência tinha os olhos mais voltados para o menor. Foi então que começaram a receber os benefícios da entidade.
O segundo cego
Certo dia, outro cego, igualmente pedinte, foi visitado pela viúva, que lhe ofereceu o pequeno pedinte graciosamente. José Luiz não se fez de rogado e aceitou a oferta, que lhe parecia vantajosa. Com os recursos que recebia, a viúva teria melhor vida, sem a presença de outra boca para cuidar.
Esse novo pedinte era mais arrogante e exigente. Tinha o pequeno negro em sua rédea impiedosa, forçando-o a gritar mais alto e a andar longas trilhas para que melhor recurso viesse juntar. Ao contrário de ser perdulário, tinha a pecha de sovinice.
— Presta atenção! Eu só vou dizer uma vez! Se desobedecer eu bato! – bradava o mendigo de forma a amedrontar o pequeno pedinte, que nessa época já contava com nove anos de idade. — Você não me engana, moleque! — Se souber que desviou uma única moeda, vai apanhar!
Esse o discurso que Manoel passou a ouvir desde sua última transferência. Porém, nem aquele tom de voz, nem a vida infâmia lhe importava. Já havia se acostumado a esse tipo de situação. Que outra vida poderia entender, senão a de ser ordenado e a fazer essa ou aquela obrigação, ou dormir e se alimentar desse ou daquele jeito? Tudo lhe era normal, já que outro tipo de vida não conhecia.
Além da insígnia da avareza, José Luiz tinha pavor de gastar o que ganhava, nem para dormir em local diferente, nem para se alimentar. Viviam de sobra dessa ou daquela residência que lhes prestavam favores. Poucos sabiam que o pedinte era possuidor de uma bela residência na cidade de Corinto, em Minas Gerais, local em que permanecia para o descanso almejado, depois de angariar fartos recursos durante as andanças em outras cidades.
O mendigo tinha um filho bem tratado e devidamente colocado ao estudo em escola pública. Não lhe era permitido estender as mãos. A mãe tinha a incumbência de tomar os cuidados para que tivesse suprida todas as necessidades na alimentação, nos estudos e no vestuário. Tinha a mesma idade de Manoel.
Além das qualidades de má reputação, José Luiz não carregava apenas a cegueira. Era alcoólatra sem demonstrar embriaguez e obcecado pela dureza de seu comportamento de violência. Não eram incomuns os momentos em que Manoel foi espancado, sobretudo quando não conseguia ajuntar maior quantidade de moeda.
Aos dez anos completos e com mais sabedoria na experiência com a lida, o pequeno não tinha dificuldades para comprar bilhetes na Estação Ferroviária de Corinto, com destino a outros municípios. Certo dia, já cansado daquela vida sem esperança, o pequeno pedinte comprou as passagens e teve o cuidado de embarcar seu dono. Desta vez, ocorreu a despedida que tanto aguardava. O cego seguiu e ele ficou na Estação.
O terceiro dono
Sem qualquer recurso no bolso, o pequeno indefeso resolveu dirigir-se para a cidade mineira de Paraopeba, atraído pela promessa de determinado homem que lhe havia feito oferta. Seguiu a pé pelas estradas e pernoitando debaixo de árvores e ao relento da noite fria. Durante a caminhada, que levou mais de um dia, relembrou a promessa de Antonio, que lhe soprara aos ouvidos, antes tomando o cuidado para que José Luiz não tomasse partido do que falavam.
— Vou tomar conta de você e dar teto e estudo! Sim - vou tomar conta de você! – relembrava o pequeno, antes de pegar no sono, pensamento que lhe corria na mente sonolenta, durante a viagem ao novo destino que o esperava.
Manoel sabia onde encontrar esse homem. Depois de dar as explicações necessárias, o estranho senhor tomou todas as providências para amparar o infortunado viajante. Cuidou logo de lhe dar teto e agasalho. Aprontou-lhe uma cama de esteira e lhe deu o de comer. A alegria tomou conta do pequeno viajante.
Não demorou uma semana para que o menino percebesse que toda aquela promessa era fantasiosa. Era freqüente a surra que o malvado aplicava em sua mulher, tocado pela contumaz embriaguez. Foi então que o pequeno viajante entendeu que as promessas de cuidado eram puro engodo.
— Venha, vou lhe mostrar o serviço! – ordenou com firmeza o novo dono de Manoel.
Ao chegar na propriedade, não longe de sua casa, local onde Antonio cuidava de roça de fazendeiro da região, o pequeno viajante começou a aprender o ofício que lhe era mostrado. Foi quando passou a ser guia de boi. Para quem era acostumado a todo o tipo de façanha pelas ruas, não foi difícil o novo trabalho, cuja renda era direcionada ao seu novo dono, não lhe restando senão o escravismo infantil. Apesar de trabalhar todos os dias, com folga penas aos domingos, Manoel sentiu-se em clima diferente da mendicância, sobretudo com o convívio em pastos verdejantes e em contato com a natureza. Mesmo sem ganhar qualquer recurso, a vida para ele tornou-se fascinante.
Ocorre que a embriaguez de Antonio, junto a amigos de boteco, tornava-o algoz, momento em que surrava a mulher simplesmente porque era moda na época. Ela apanhava sem gritar. Era a ordem do companheiro. A reclamação era motivo para que o chicote fizesse marcas mais profundas no corpo de Diva. Como Manoel presenciava a cena contumaz, a chibata se voltava para ele como mostra de quem mandava na casa era o chefe todo poderoso.
— Ai de você se alguém ficar sabendo! – vociferava o dono do pequeno.
Manoel aprendeu a ouvir e apanhar em silêncio, para ao raiar do dia seguir ao trabalho sem direito a qualquer reclamação. Diva cuidava da casa, mas sabendo que a qualquer momento viria de novo a levar outra surra, que se tornou comum. Foi então que essa mulher sofredora começou a planejar uma forma de escapar dos maus tratos. Já não agüentava de tanto sofrer. Temia apanhar indefinitamente, diante da violência tomada por aquele estranho homem.
Aproveitando-se da sesta do companheiro, depois do almoço aos domingos, Diva chamou Manoel para um plano ambicioso. Tratava-se de uma fuga que ela já vinha planejando fazia algum tempo. Abeirou-se do pequeno indefeso e noticiou o seu plano. O pequeno viajante ficou perplexo e com muito medo.
— Não se preocupe, vai dar tudo certo! – afirmava na convicção de que o pano seria perfeito.
Em sua inocência, Manoel limitava-se a ouvir. De cabeça baixa ouvia o plano que Diva planejava fazer.
Um certo dia de domingo, com a voz meiga e branda, Antonio concordou que a mulher e o pequeno fosse rezar na igreja católica da cidade.
— Com uma condição! bradou o companheiro, que mais parecia o dono do mundo. — Tem que ser na primeira missa, bem cedo, e no mais tardar às oito horas quero os dois aqui em casa, sem falta!
— Sim, vamos fazer como o senhor deseja! – agradecia a mulher, cabisbaixa.
— E mais, quero o almoço pronto às 11:00 horas, sem falta e se atrasar vai apanhar!
Domingo, 5:00 da manhã. Diva levantou-se e acordou Manoel para chegarem à missa das 6:00 horas.
— Preste atenção, vou ficar na fileira de traz e quando eu levantar a mão, você pega o anjo e faça o que lhe pedi! – disse Diva ao olhar amedrontado de Manoel
Logo na entrada da igreja havia um anjo coletor de dinheiro, que abaixava a cabeça sempre que o fiel depositava moeda. Diva aguardou que a missa tivesse alcançado quinze minutos, tempo para que todos já tivessem tomado seu assento, inclusive o mais retardatário. Tudo tinha que obedecer ao plano que ela vinha desenvolvendo fazia algum tempo.
A companheira do algoz esperou o momento em que o pároco se voltasse para o altar, em obediência ao ritual apostólico. Foi o instante em que acenou. Manoel pegou o anjo de barro e o levou para atrás da igreja. Tomou o cuidado para que ninguém o visse. Com muito medo de ser flagrado e obedecendo ao comando planejado por Diva, o guia de boi quebrou o anjo no piso de cimento, coletando todas as moedas que nele continham, colocando-as em uma bolsa feita pela mulher de Antonio.
Antes de terminar a missa, Diva levantou-se e tratou de levar Manoel para casa o mais rapidamente possível. Antes de chegar em casa, tratou de esconder o produto do furto nos arredores da casa, tomando as precauções para fazer a marca necessária para o reconhecimento. Antes das 8:00 horas os dois chegaram em casa, sob o olhar machista de Antonio.
Ainda naquele dia, Diva fez um almoço com mais carinho e se fez mais fogosa junto ao companheiro, predispondo-se a envolve-lo e com plano de levá-lo à cama para uma tarde de relacionamento sexual, bem ao jeito de Antonio. Logo depois da sesta, a companheira tomou o cuidado de tomar um banho caprichado, a cujo envolvimento levou Antonio ao clímax da sensualidade vespertina. Depois de completados mais de duas horas de puro romantismo, a companheira sussurrou aos ouvidos de Antonio.
— Se eu fizer um pedido você atende?
— O que é?
— É que eu tenho que fazer uma capina no quintal e preciso que Manoel fique aqui amanhã, pela parte da manhã!
— E porque você não faz o serviço?
— Pra eu poder servir ao meu senhor como hoje!
— Ah, isso eu gostei!
O semblante da companheira ficou sorridente ao sentir que Antonio havia permitido. Na segunda-feira, logo após a partida do companheiro ao trabalho, Diva apressou Manoel para que juntasse os trapos. Não demorou para que os dois partissem para a estação ferroviária, para a compra de bilhetes, com o resultado das moedas subtraídas da Igreja. No local havia comentário do furto, ao que ouviram sem fazer comentário. Embarcaram rumo a Sete Lagoas.
O que Diva deixou de combinar foi que se tratava de uma casa em que só era permitida a permanência dela. Eram parentes em linha paralela, que a receberam com a obrigação de trabalhar nos cuidados da casa, sem qualquer remuneração. Teria apenas o direito de dormir e se alimentar.
— Aqui só cabe um! Não tem lugar pra você! Hoje mesmo você está livre pra ir onde quiser! – foram as últimas palavras daquela mulher, que se aproveitou do menino, para se livrar do homem que a maltratava.
Manoel ouviu calado e como sempre abaixou a cabeça em sinal de respeito. Isso para ele não tinha muita importância, pois já tinha ouvido as mais malsinadas verbalizações no trajeto que passou. Diante do ultraje que lhe fora jogado à face, e da carantonha de todos os parentes da mulher fugidia, o pequeno não teve outra solução. Sem destino, sem cama acolhedora, sem teto aconchegante seguiu caminho sem rumo certo.
Vagando sozinho
Mais uma vez o pequeno viajante ficou à mercê da sorte. Sem residência certa, passou a residir nas ruas dessa cidade. Dormia debaixo de lajes e outras vezes se abrigava ao relento das árvores nos parques. Durante o inverno preferia recolher-se na estação ferroviária, local familiar diante das inúmeras idas e vindas e de uma a outra cidade, lastreado pelo comando de seus proprietários. Com medo dos vigias e da polícia, escolhia vagões abandonados para o sono noturno, sem qualquer conforto.
Aos onze anos completos, vamos ver o pequeno andarilho seguir caminhos diversos. Impossibilitado de arrumar um emprego decente, porque ainda não possuía registro civil, chama-se apenas Manoel. Algo de comum transparecia no caráter desse pequeno andarilho. Além de obediente, diante das obrigações que lhe eram impostas, vamos ver o jovem suplicando por serviços avulsos, em troca de prato de comida.
— A senhora quer que eu faça a capina?
A mulher virou-se e notou a súplica do jovenzinho, a pedir trabalho em farta horta ao redor da residência familiar. Tratava-se de época sem tanta violenta, e as pessoas sentiam piedade dos miseráveis. Foi assim que o pequeno desconhecido passou a realizar pequenos afazeres. Sentiu necessidade de ser útil e de realizar um sonho, que comumente lhe pairava na mente. Sair da dependência das ruas passou a ser seu novo objetivo.
O tempo passa sem lhe oferecer a oportunidade almejada e de lhe dar um nome completo. Nem ele sabia como isso seria possível. Esse o objetivo que passou a perseguir, mas sem guardar saudades dessa época em que as autoridades tinham mais visão para os que podiam pagar.
Certo dia conheceu um grupo de quatro crianças e se encantou pela nova amizade, que lhe parecia promissora. Mas logo viu que se tratava de meninos que furtavam garrafas vazias para serem vendidas em outro estabelecimento comercial. Faziam isso para comprar passagem para viagem à capital. Logo reconheceu que se tratava de turma perigosa. Mesmo assim, resolveu se aventurar.
Já embarcados, resolveram fazer anarquia nos vagões, o que muito causou incômodo aos passageiros, que prezavam pelo sossego de uma viagem tranqüila. Com a gritaria e o corre-corre que aprontaram, o fiscal tomou a iniciativa de entregar os pequenos infratores ao comando da polícia, fato que ocorreu logo que a viatura chegou ao bairro General Carneiro, na cidade de Sabará.
Os meninos foram levados ao posto policial e levaram uma sova de palmatória, sem qualquer piedade dos agressores. Ao final, os hematomas não permitiam aos pequenos fecharem as mãos. Foram felizes por não sofrerem fraturas nos delicados dedos das mãos.
Alfredo Pinto, considerado instituição de depósito de menores infratores, era o destino apontado pelo delegado. O pequeno grupo se mostrava apreensivo, eis que não sabia o que lhes aguardava. Ao chegar a Belo Horizonte e ao descerem na Estação Ferroviária, com a traquinagem aprendida durante sua vida de pedinte, Manoel se misturou no meio do povo, fugindo ao controle policial. Chegou a observar os olhares dos agentes, que pareciam buscar alguém fugidio.
Vamos ver agora o pequeno viajante na grande capital mineira, perdido diante de imensos edifícios e do trânsito assustador, característico das grandes metrópoles. Não foi diferente sua situação no momento de dormir nem de continuar a estender as mãos, como era de seu costume. Não fosse assim, como poderia continuar vivendo?
Nas idas e vindas, perambulando aqui e ali, certo dia viu um pequeno ônibus de Sete Lagoas, cidade que lhe serviu de abrigo e que guardava maior carinho. Tratava-se de um veículo cujas malas eram presas em cima do veículo. Havia uma escada, que partia da parte posterior e subia ao teto, visando servir ao motorista fazer o trabalho sem maiores dificuldades.
É o instante em que Manoel aproveita para pegar uma “ponga”, sem ter que pagar a passagem, que não tinha como arcar. Toda vez que havia parada, o pequeno viajante cuidava de descer, para não ser pego em flagrante. A cada partida, ele se apressava para novamente se atracar na escada, que lhe servia de apoio.
Já cansado de tanto sobe e desce, nas inúmeras paradas para a descida e subida de passageiros, ocupando seu tempo para as necessidades básicas, o jovem perde a carona e fica perdido numa cidade mineira chamada Pedro Leopoldo. E agora, o que fazer senão o de sempre? Prosseguir na vida de desamparo. Era o que sabia fazer.
O terceiro cego
Semanas se passaram. Perambulou a esmo naquelas terras mineiras, até reconhecer um cego de nome Luiz Procópio, que esmolava em companhia de sua companheira Maria da Conceição, que tinham residência em Capim Branco, conhecida como “terra do alho”.
— A sua bênção! – disse em tom de respeito.
— Ah, você não é o menino que acompanhava o Acelino, mais a sua mulher? – observou a mulher do cego.
Cabisbaixo, Manoel fez um gesto afirmativo, preservando o silêncio, pois não sabia se outro destino cruel estava à sua espreita. Logo passaram a conversar e o medo foi se esvaindo aos poucos da face do pequeno abandonado.
— Puxa, você está muito sujo e fedido! – continuou a mulher em sua ponderação.
— É que eu não tenho pouso certo e faz dias que não chove!
— Venha, vamos para debaixo da ponte, onde nos abrigamos do tempo! Vou poder lhe ajudar um pouco!
A mulher do cego tinha em seu poder uma lata de vinte litros e com ela acendeu uma fogueira. Colocou as roupas de Manoel e deu a necessária fervura com sabão.
— Vem aqui, não tenha medo, vou lhe ensaboar!
Temeroso, diante da interjeição de Conceição, que ele mal conhecia e de olhar assustado, recebeu banho dos pés à cabeça. Aquele foi o momento em que sentiu pela primeira vez a alma lavada. Nunca ninguém lhe havia dispensado tamanho desvelo. Sua lembrança era de apenas flagelo. Sentiu por um instante que havia outro tipo de vida, senão aquela em que era só ouvir o comando e seguir estrada, quando não sofria humilhações, pichações e constantes surras.
Conceição caprichou na tarefa a qual se incumbiu. Não se tratava apenas do banho, mas da maneira com que o trato se mostrava ardoroso e conchegante, como de uma mãe carinhosa, diante do cuidado de filho amado. Nunca antes tivera essa sensação de prazer.
— Isso não pode ser verdade! Você tem lêndeas por toda a cabeça! Está impregnado de bicho de pé e até as dobras da roupa tem sanguessuga! - exclamou a mulher do cego.
A vergonha fez que Manoel permanecesse sem falar. Depois do labor empenhado, sentiu-se inebriado de extrema sensação de faz, pois nunca alguém lhe fizera isso a seu favor. Sentiu-se de bem com a vida. Era como se se sentisse gente como qualquer outra pessoa. Que banho reconfortante e inesperado! - pensava só para si.
— Você nunca tomou banho, menino?
— Eu só podia tomar banho quando chovia, e era preciso tempo sem frio, pra doença não pegar!
O casal de pedinte a tudo ouvia em silêncio.
— Não tive teto! Passei fome e frio! Apenhei muito! Não tenho nome! Meus parentes são os bichos que a senhora tirou de mim!
— Não fique preocupado! A gente não vai maltratar você! – redargüiu a mulher que se compadecia do sofrimento retratado por aquele menino maltrapilho. — Vamos tomar conta de você e lhe dar teto e comida!
Nenhuma lágrima correu no rosto da pele negra do jovem, que não sabia o que era sentimento. Porém, era brando o seu semblante, agora protegido por pessoas estranhas, mas que lhe dispensavam apreço e proteção. O marido, que a tudo ouvia em silencio, repousava seu corpo à sobra da ponte, que abrigavam a todos.
Passados alguns dias, dirigiram-se para Capim Branco e o menino finalmente começou a se sentir em clima de família. Não mais levou surra. Era tratado com respeito. Conheceu a dignidade. Tratava-se de uma morada singela, mas de esmerada ternura e respeito.
De comum acordo, depois de muito tempo naquele pequeno município, partiram para a capital. O garoto reconheceu a grande cidade, em que antes se sentia em pleno abandono. Continuava na mendicância. Porém, o casal não mais levantou as mãos impiedosas, como em tempos anteriores.
O sonho de trabalho remunerado apenas pairava na mente do menino. Era necessário continuar naquele trabalho e em nome de Deus. Para aprimorar a técnica de esmolar, Manoel aprendeu a tocar cavaquinho. Com Conceição ao violão e o cego ao pandeiro, cantavam aos transeuntes que por ali passavam. Depois de algum tempo de permanência na capital, resolveram partir para o sul de Minas Gerais, rumo à cidade de Santo Antônio do Monte, local onde formaram nova residência.
Passaram a viajar para Itapecerica, Pedra do Indaiá, Arcos, Formiga, Bom Despacho, Lagoa da Prata, Uberaba, Uberlândia, Três Corações, Ubá, Lavras, Estrela do Indaiá para depois retornar à cidade de origem.
Um belo dia, ao saltar do caminhão, como carona, Luiz Procópio se acidentou. Já não se sentia bem. Foi diagnosticada insuficiência cardíaca, ocasião em que não mais se levantou do leito, vindo a falecer. Maria da Conceição vendeu a casa e retornou com o menino negro à capital mineira. Comprou um lote e construiu uma pequena casa de taipa, com uso de argila e cascalho e com telhas de coxa, que comprou na sucata.
Primeiro trabalho
Ocorre que a mulher, que bem poderia ser sua genitora, sobretudo pelo carinho que dispensava ao agora adolescente, teve que amparar sua mãe no mesmo teto. Um tanto perturbada, a idosa passou a demonstrar estranheza com Manoel.
— Esse negro tem que trabalhar! Você precisa mandar esse moleque para fazer alguma coisa! – redargüiu dona Cesariana com a firmeza que lhe era peculiar.
— Calma, mãe, tudo vai se ajeitar!
— Que nada, esse preto tem cara de fazer nada!
Conceição ouvia intranqüila, mas tinha que respeitar sua mãe, que já inspirava os cuidados, para não ter complicada a saúde. Dirigiu-se ao pequeno e disse:
— Manoel, até agora não fizemos senão estender as mãos. Vamos nos esforçar para trazermos o alimento por meio do trabalho. Você já está grandinho e já está na hora de aprender os ofícios da vida. Não podemos ficar apenas com a aposentadoria de minha mãe, entende?
Foi então que Manoel, com dezesseis anos de idade, saiu em busca de emprego. Sem a necessária documentação, não era fácil arrumar algo o que fazer. Seu primeiro trabalho foi abrir ruas numa região infestada por mato, local onde se tornaria baixo nobre da capital mineira, denominado Sion.
Tratava-se de emprego em empreiteira da prefeitura de Belo Horizonte. Naquela época o trabalho sem registro era comum. A legislação trabalhista ainda levaria algum tempo para ajustar os direitos dos trabalhadores. Contudo, isso era importante, pois sem ter nome em registro civil, não lhe seria possível trabalhar, caso isso fosse levado a efeito nos dias atuais.
O trabalho de sol a sol não impedia a que o adolescente formasse calos em suas mãos, não mais na mendicância. Apesar de toda a tarefa escravagista, não havia em sua face qualquer arrependimento ou pensamento de desídia. Queira prosseguir em sua labuta. O intervalo entre jornadas era curso. Mesmo assim não havia qualquer queixume em sua boca.
Sem saber que aquelas paragens grotescas abrigaria o Colégio Nossa Senhora de Sion, em que estudaria futura Presidente de República, o suor em trabalho árduo era o que o pequeno negro sabia fazer. Não havia descanso. Seu momento de folga era só aos domingos, para descansar o corpo dorido. Mesmo assim, era do seu agrado continuar naquelas condições. Isso permitia não ter mais que estender as mãos em nome de Deus.
A genitora de Conceição exigia que toda a remuneração auferida pelo incansável sobrevivente fosse entregue para o custeio da casa, o que ele obedecia sem reclamar. Em troca, Manoel tinha o teto, roupa lavada e alimento. Estava bom para ser verdade. No entanto, a malandragem da vida lhe ensinou a guardar pequenas quantias, com receio de que novas represálias lhe aparecessem de inopino.
Algum tempo se passou, até que surgiu ao convívio doméstico um parente de Conceição chamado Silvio, que a propósito não tinha registro civil. Vivia na pobreza no interior, vindo a conviver no mesmo teto e na esperança de que pudesse ter sucesso em alguma profissão, que não mais fosse a de pedir esmola.
— Maria, você precisa registrar o Silvio! – bradou dona Cesariana em tom imperativo.
Ao ouvir, Manoel sentiu-se comovido e pediu para que também seu nome fosse levado a registro, já que estava pronto para seguir em frente no trabalho, na expectativa de arranjar melhor posição. Era, alias, a ordem que recebia de seu chefe e também dos colegas de trabalho.
— Você nasceu pra ser escravo! Onde já se viu? Negro não precisa de registro! – vociferou grotescamente a genitora de Conceição, esboçando a carantonha de esgar que lhe era própria.
Manoel não respondeu com medo de novos ataques, que já conhecia e sempre aprendeu a respeitar. Sabia que era necessário discernir e a de separar o bem do mal. Mesmo assim, baixou o rosto em respeito à idosa que lhe feria a intimidade, tantas vezes lancetada pela língua de farpas e mãos grosseiras.
O que fazer diante de tal bruteza senão aguardar momento oportuno? Manoel aprendeu que isso fazia parte da vida. Sofrer e aguardar momento melhor. Seguir adiante. Não reclamar. Não se desesperar. Manter a calma. Nunca deixar esgotar a paciência. Ouvir sempre e se calar.
Com respeito à pessoa da mãe, Maria da Conceição obedecia a seus argumentos, embora não concordasse o azedume que lhe manchava a intimidade do ser, com clara e evidente demonstração de obscuridade de sentimento.
Foi então que a filha educada começou a sair com mais freqüência, dando a evidência que levava e trazia documentos e informações para levar a termo o registro civil de Silvio. Manoel percebia ser verdade esse fato, mas permanecia quieto.
Certo dia, disse seguir ao trabalho, mas se sentiu atraído a buscar seu destino e assim seguiu Conceição. Logo que pegou o bonde, o desprezado adolescente correu e se camuflou na última cadeira, que seguiu em direção a Dr. Jarbas Vidal Gomes. Tratava-se de uma residência conjugada ao Cartório.
De longe observou os passos da genitora de Cesariana. Aguardou até que Maria saísse e em seguida perseguiu os mesmos passos. Bateu à porta e viu a surpresa esperada.
— O que você deseja, rapaz! – perguntou a funcionária do cartório.
— Eu moro na mesma casa de onde saiu a mulher que aqui veio em busca de registro!
— Ah, sim, você deve ser o Silvio?
— Eu me chamo Manoel!
— Como assim, aquela senhora disse haver um só rapaz e agora aparece você? Não entendo!
Depois de algumas explicações necessárias, percebeu-se que se tratava de outro rapaz que também não tinha registro. Ao levar o caso e depois de passada meia hora, o oficial de registro se mostrou interessado, sobretudo pelo caráter dispensado aos bons ofícios aos quais laborava com prazer.
— Você também não tem registro? Como pode só o outro ser beneficiado?
Dentro de seu medo e experiência, Manoel permaneceu mudo por alguns instantes, mas a coragem foi mais forte e assim aduziu:
— Peço ao senhor para não fazer mal juízo da dona Maria da Conceição, que muito tem me ajudado! Tem sido mãe pra mim! O problema não é ela, é a mãe que não me quer! Só peço pro senhor me ajudar! Sempre fui pedinte e já consegui trabalho! Lá, os homens me pedem registro!
Um tanto motivado pela observação do rapaz, o homem de Estado sentiu-se incumbido de prosseguir e a achar o meio para atender àquele que parecia se tratar de um caso inusitado.
— Tudo bem, me dê o nome de seus pais!
Cabreiro diante da autoridade que lhe formulava perguntas, o adolescente suava e ao mesmo tempo não conseguia falar a verdade. Será que aquele momento seria mais um "não" dentre outros tantos que lhe haviam desferido a alma opressa? De olhos arregalados, com medo de haver outra represália disse com receio:
— Isso eu não sei! Minha mãe foi mulher de vida e queria me atirar nas águas do Rio Doce! Não sei quem é meu pai!
O Notário enrugou a testa e levou a mão ao queixo. Pensou por alguns segundos e de olhar complacente observou para si mesmo. Como fazer registro de alguém sem pai, sem mãe? E a severidade da lei?
Temendo que mais uma resposta negativa se lhe apresentasse, o rapaz recolheu-se ainda mais na cadeira que lhe servia e com jeito de rapaz comportado se preparou para dar sua cartada derradeira. Afinal, o que tinha a perder?
— Doutor, vamos fazer de conta que minha mãe se chama Maria Ramos e meu pai João da Silva! – disse como quem nada tinha a perder.
O Oficial se rendeu diante do caso que se lhe apresentava, como nova barreira a ser derrubada, inclusive com afronta à lei e aos costumes que a época impunha. Interessou-se pela fascinante história do rapaz, mas havia outro problema. O que fazer para encontrar a data de nascimento do infante?
Depois de conversarem por dois quartos de hora, desvendou-se que o andarilho de Figueirinha poderia ter nascido em 05 de março do ano de 1935, data que o oficial registrou na mais recente certidão de nascimento.
— Pra mim tá bom! – aduziu o ex guia de cego, agora com os olhos agradecidos de alegria.
Ao pegar o registro de Silvio, a mãe de Conceição ficou sabendo sobre a certidão de nascimento de Manoel. Com a frieza de sempre, pediu para que a guardasse, mas o mancebo percebeu que havia fel naquelas palavras. Com receito, recusou-se a entregar o documento.
A partir dessa ocasião, o clima doméstico ficou mais acirrado, sobretudo quando o Oficial chamou a atenção de Conceição, por não ter se interessado pelo caso do Manoel, mesmo tendo ela dito que a culpa era de sua genitora.
Meses se passaram e certa noite uma sobrinha de Maria da Conceição pediu que Manoel tocasse violão, aprendizado que lhe fora concebido nos tempos de mendicância. Nessa noite de sábado, o mancebo estava exaustivamente cansado, guardando nas mãos calos impiedosos diante do trato com o trabalho pesado. Não lhe era possível prosseguir. A exaustão só lhe pedia para repousar o sono que a noite oferecia aos justos.
A idosa ficou ressentida. Não podia ver diante de seus olhos aquele a quem chamava de escravo e negro sujo. Diante de sua recusa em não tocar o instrumento, dona Cesariana partiu para cima dele com uma machadinha, com o intuito de lhe golpear a cabeça.
— Seu moleque imprestável! Negro maldito!
Manoel só teve tempo para voltar o violão em sua defesa, tendo a ferramenta rachado o instrumento ao meio, sem maiores prejuízos. Por pouco o golpe lhe custaria a vida. Não mais havendo clima doméstico, que mais parecia um campo de guerra, a vida do recém registrado parecia lhe mostrar novo rumo. Não eram somente palavras ofensivas. Havia ódio a expressar-se naquela mulher, que não conseguia admitir que o escravo merecesse registro.
Maria da Conceição pediu calma, mas a animosidade de sua mãe era estarrecedora. Manoel não teve outra solução senão a de abandonar a casa. Nesse dia pernoitou em mata próxima. Ao surgir os primeiro raios solares, vamos vê-lo caminhar em busca de abrigo.
Vida nova
Foi então que alugou um pequeno quarto, sem qualquer mobília. Sua primeira noite foi dormiu no chão frio. Relembrou velhos tempos nas ruas gélidas. Aos poucos foi adquirindo móveis e utensílios de utilidade doméstica. Tudo muito simples, que mal lhe cabia no orçamento. O velho fogão ficava fora do quarto e ao relento. Era preciso encarar essa nova faceta, dentre as tantas que enfrentou. Mesmo assim, a alegria de viver não se espaireceu da face.
Passada a fase da adolescência, vamos ver o sobrevivente bastardo buscando novas conquistas de amigos, quando passa a conhecer Ana Maria, que na época noivava rapaz desempregado, nascido na capital mineira. A moça não se mostrava inebriante com aquele que seria seu futuro marido. Vinha de família pobre e laborava duro para sobreviver, em companhia de outras colegas, que dividiam cômodo simples.
Ana fazia parte da Irmandade Filhas de Maria Auxiliadora. Moça de parcos recursos financeiros, conheceu Manoel, que igualmente ligado à Igreja, tornou-se Congregado Mariano. Passaram a manter constantes diálogos, respeitando sempre sua posição no compromisso de noivado. Os dois mantinham seriedade diante dos compromissos assumidos, segundo as normas da Igreja.
Feita a amizade, os encontros passaram a ser mais freqüentes e os assuntos se atrelavam às dificuldades em que os dois tiveram na infância. A cordialidade era mantida, bem como o respeito que a época exigia dos jovens inexperientes. Certo dia Manoel reparou que o semblante da amiga se apresentava mais introspectivo. Por um tempo permaneceram silentes, mas uma lágrima correu no rosto da jovem.
— O que foi, alguma dor?
— Não é nada, não!
Sem que percebessem, ao tecer colóquios sobre o passado, fez nascer em Ana algo que guardava desde tenra infância. Por quinze minutos permaneceram calados, mas ela acabou deixando fluir o sentimento pesaroso, marcado pela infância tristonha e da pobreza que lha abrasava o coração de jovem. A vida também lhe fora impiedosa.
— Me sinto muito só e não tenho família! Tudo tem sido muito triste pra mim! Moro com grupo de moças e como eu trabalham pra se sustentar! A gente pouco se fala e nos finais de semana a vida parece estar vazia e cheia de angustia.
O interlocutor ouvia atendo. Silente, recordava seu passado nas ruas e avenidas, e o desprezo experimentado por tantos que dele se aproximaram com o intuito de obter resultados graciosos e maldosos.
A partir desse momento, começaram a se encontrar com maior freqüência, até o dia em que o nosso personagem, já colocado em profissão que lhe dava sustento, albergado por emprego com registro, resolveu pedir à amiga em casamento. Nessa ocasião, o noivado havia se rompido. Ana sentiu inoperância no noivo. Era frio e desalentador.
Havia precipitação nesse relacionamento, sustentado por dois jovens que se buscavam escorar um ao outro? Não se pode afirmar com certeza, embora o quadro fosse de duas pessoas que passaram pela puberdade e não tinham experiência no trato com qualquer outro relacionamento. Tratava-se de uma tentativa ou um pulo no escuro.
As núpcias ocorreram de forma muito singela, restringindo-se ao registro cartorário, sem maiores formalidades, mesmo porque eram parcos os recursos financeiros. Alugaram pequena casa na favela denominada Morro das Pedras, localizado na região oeste da capital mineira. Que outra sorte poderia estar reservada aos jovens, ele vindo da mendicância e ela de família pobre, cujas parentes haviam falecido.
Na casa não havia encanamento. Era necessário recorrer à torneira que servia a várias residências. O trabalho exigia maior locomoção, para que ao lar pudessem ser levadas as mínimas condições de alimento e higiene. Tratava-se de vida simples, mas não miserável. Havia recursos para prosseguirem adiante. Se não havia felicidade de abastança, não significava que essa virtude faltava no jovem casal, que passaram a experimentar vida nova.
Dessa união vieram cinco filhas encarreiradas, o que resultou em maiores dificuldades, não apenas na questão da alimentação e vestuário, como também nos resultados provenientes da saúde das crianças. Naquela época a doença era diagnosticada pelo farmacêutico e às vezes levada a efeito pelo Posto de Saúde. O médico era coisa de rico e plano de saúde inimaginável.
Manoel conseguiu colocação em madeireira da capital mineira. O horário era de 7:00 às 17:00h. Quando chegava vagão de madeira, o trabalho se estendia até às 2:00 ou 3:00 da madrugada, com obrigação de estar novamente ao início da jornada, para renovar o compromisso laboral. Era época em que as leis trabalhistas passavam de largo.
A esposa tinha seu labor integralmente voltado para as crianças. No início havia carinho no relacionamento nos jovens nubentes e tempo dispensado à sensualidade, mas com o passar do tempo a companheira demonstrava cansaço. Por vezes o marido tinha que buscar a água para o banho e raramente encontrava o alimento aquecido.
Foi quando começaram a sentir o desgaste no relacionamento, diante da ausência de planejamento. Vamos ver os dois jovens, com a penca de crianças, tendo às costas o compromisso do aluguel e o dever de prosseguirem na criação dos filhos, que não se desincumbiram um minuto sequer, inclusive no campo da responsabilidade educacional.
As dificuldades começaram a aparecer. A mudança do clima brusco fazia adoecer as crianças. Havia mais necessidade de recursos financeiros numa época em que a qualidade de vida foi sendo comprometida pelo sistema econômico do país. Eram tempos novos, com mudanças repentinas no sistema governamental.
Estamos nos anos sessenta, época em que o Brasil passava por profundas instabilidades políticas. Havia muita confusão na população, que por vezes se dividia entre ricos e pobres, burguesia e miseráveis, sistemas econômicos e forças religiosas, democracia e comunismo. As grandes capitais sofreram os abalos daquela época. Tudo começou a sofrer mudanças.
O descontrole chegou a tal monta que não houve solução de continuidade. Foi quando os militares, com alguns grupos da sociedade civil, resolveram aplicar o golpe militar em 31 de março de 1964, visando colocar ordem em uma casa que se mostrava sem controle. Com a renúncia de Jânio da Silva Quadros, a presidência foi levada a efeito por pouco tempo por seu vice, João Goulart, que perdeu por completo o controle do leme.
Com a renúncia de Jango, o poder central do país foi conduzido interinamente por Ranieri Mazzilli, por pequeno espaço de tempo, e aos 15 de abril de 1964 sobe ao poder ditatorial a figura do general Humberto Castelo Branco, frente aos embaraços na política e na desorganização na ordem. Foi necessária a intervenção? Havia motivo para se chegar a tanto? O tempo dirá.
Nessa época o emprego passou a significar coisa rara. Só quem tinha função pública e os empresários bem sucedidos podiam se colocar numa posição de regular conforto, a detrimento da grande massa da iniciativa privada, ocasião em que a família de Manoel começou a sentir as primeiras dificuldades. Os tempos não eram os mesmos. O clima no lar já não trazia a harmonia almejada.
Uma visita inesperada veio abalar a vida do casal. Tratava-se de uma sobrinha residente na capital paulista. Depois de ouvir as reclamações da esposa, a parenta sugeriu que ela procurasse resultados provenientes do Candomblé. Sem conhecer bem o campo religioso da capital mineira, a sobrinha encaminhou-a para uma seita perniciosa, que não representava a linha a qual freqüentava em sua terra, mas outra dirigida por pessoas de má inclinação.
— Eu soube que aqui perto tem um Templo parecido com o meu! – exclamava a sobrinha, como se soubesse o que estava fazendo.
Sem a presença do marido, as duas se aprontaram rumo a esse grupo conhecido pela prática de estranhas magias, que se organizaram com o fim exclusivo de buscar angariar recursos, utilizando-se da enganação.
A estranha seita tinha o cuidado de fazer orquestração teatral, dando a entender que podiam curar cegos, fazer levantar cadeirantes, curar feridas insistentes e tantos outros milagres ardilosamente engendrados.
O resultado foi positivo. As duas saíram da reunião com a nítida impressão de que aquela encenação pudesse resolver os problemas domésticos e pessoais, não sabendo que a influenciação que denominaram milagrosa iria mudar o rumo da família.
Nos dias que se seguiram, aquela seita tanto enganava as parentas quanto a outras pessoas igualmente iletradas, que acreditavam ser medicamento e solução para suas vidas mal resolvidas. E assim chegou a vez da esposa de Manoel.
— Ah, vosmecê tem o corpo aberto! Vovô tá vendo doença em casa! A coisa anda mal! O dinheiro tá acabando, né minha fia! – dizia sabiamente a voz, conhecedora da situação e do dilema da maioria das pessoas que padeciam da mesma situação, diante do processo econômico nacional, que ameaçava e corria os rendimentos domésticos.
Com vestimenta a caráter, os membros da seita se aprontaram para dar o golpe certeiro. Balançando um chocalho e batendo tambor, o personagem embusteiro maquinava gestos de aparência sobrenatural, como a demonstrar estar resolvendo todos os problemas.
Foi então que prepararam extensa lista para que Ana Maria comprasse, frisando que todos os produtos tinham que ser adquiridos ali mesmo, senão incorreria de não haver êxito nos trabalhos. Tratava-se de golpe infalível.
— Pode deixar tia, que eu mesma vou lhe ajudar na obtenção dessas velas, galinhas pretas e outros produtos que a entidade falou! Eu também vou me encarregar de colocar toda a comida na encruzilhada! Pode deixar que a sua vida vai melhorar, eu garanto! – sussurrava aos ouvidos da tia, que se mostrava confiante.
O trabalho foi realizado na forma idealizada pelo obscuro grupo. Manoel soube e complacentemente aceitou a versão apontada pela esposa, dentro de sua inocência de marido exemplar e obediente. Contudo, com o passar do tempo, seu inconformismo passou a se aflorar.
— Não estou gostando do que estou vendo! – salientou o marido, depois de ter visto algumas cenas horripilantes, como a decapitação de galinha preta, com o jorro do sangue sobre ossos e todo o tipo de imundície juntada à bacia grande.
— Você é do contra! Toda vez falo você não atende! – falava aborrecida a mãe das cinco crianças.
Manoel passou a ter menos rendimentos. Seus serviços na madeireira foram dispensados. Não havia como agradar a mulher como antes, sobretudo diante dos parcos recursos que recebia a cada final de mês. A esposa passou a não lhe dar importância nos deveres domésticos. Chegava do trabalho cansado e tinha de preparar as coisas que antes era atribuição da mulher. Sentiu-se abandonado, a lembrar dos tempos de esquecimento a que fora subordinado na infância e na juventude. Certo dia, demonstrando evidente perturbação, muito irritadiça e perturbada acentuou:
— Vou fazer de você meu cachorrinho! Vai ter que obedecer tudo o que eu disser! – sentenciava a esposa agonizante, extremamente influenciada por aquela seita estranha, cujo resultado causou comprometimento diante dos deveres matrimoniais. Não mais havia carinho entre o casal.
O clima doméstico já não era o mesmo. O marido teve de se adequar ao novo ritmo de vida, bem estranho ao início do matrimônio, com total desvio das tarefas rotineiras, agora recebendo o gelo que a esposa lhe lançava. Sentiu-se vencido e humilhado. O que lhe salvava era o desvelo dedicado ao trato com as filhas, mais o trabalho ao qual sempre se fez presente.
A segunda união
Cabisbaixo e tristonho, passou a ser levado a outros caminhos, ocasião em que conheceu aquela que seria sua segunda companheira, com quem teve oito filhos, mas não antes de resolver a situação junto às filhas. O relacionamento do lar desmoronou-se.
— Não posso lhe garantir estabilidade até resolver minha situação diante da minha família! Tenho trabalhado duro para garantir o sustento das minhas filhas, a quem dispenso todo o meu carinho!
— Eu acho que você tem razão! Também concordo que deve fazer o impossível para não abandonar suas meninas! – dizia Clemência um tanto preocupada com toda a situação perturbadora.
Por longo tempo o pai das meninas trabalhou pesado para garantir a manutenção do lar, sobrando-lhe parcos rendimentos, agora já afastado do lar. Foram vários anos de luta. Apesar da crise econômica se acelerar, buscava sempre meios para que nunca faltasse o necessário.
Fez de tudo, mas não houve possibilidade para se harmonizar de volta ao lar. A esposa estava irresolúvel, agora pensando em apenas continuar na criação das meninas, fazendo-se merecedora da ajuda das amigas da juventude, que viam a situação aterradora que se encontrava.
Nessa época de ditadura militar, os tempos glamorosos foram se declinando a cada ano. Houve forte queda nos rendimentos remuneratórios dos trabalhadores. O povo brasileiro não mais tinha liberdade nas escolhas. A população havia crescido em número e a demanda de oportunidade de trabalho se escasseava a cada dia.
Com o tempo, a situação de Ana e suas filhas foram abrandadas pela complacência alheia, que se compadecia dos inúmeros problemas, que não eram poucos. Manoel foi morar com Clemência, cujo ventre lhe rendeu três filhos. Foram muitas as dificuldades, mas a vida prosseguia. Foi então que o novo casal resolveu embarcar em direção ao município de Serra, na promessa do atual empregador que lhe dizia ser possível encontrar oportunidades de trabalho, junto a empresas ligadas à CST e VALE. Não foi isso o que encontrou. Ao chegar às terras capixabas, as portas já havia se fechado.
A vida não era mais como nos tempos da madeireira, cujos recursos laborais facilitavam a vida em família. Agora o nosso personagem está enfrentando outras dificuldades da herança deixada por governos que se demoravam nos tempos de glamour. Os trabalhos de infra-estrutura do país ficaram à deriva, agora enfrentados pelo novo governo opressor, que fazia o impossível para pôr em ordem a casa.
Os novos tempos apresentavam dificuldades variadas. O trabalho fichado tornou-se peça rara. Na construção civil havia o aviso “Não há vagas, não insista”. O Estado era governado por Eurico Vieira de Resende, mesma ocasião em que o governo federal era regido pelo general João Figueiredo. Em plena ditadura militar, o quadro só piorava para as famílias de pequena renda. Não havia chance de se arrumar boa colocação. Vez ou outra aparecia biscate aqui e ali.
Mesmo assim, a família cresceu. Vemos agora o casal carregando oito filhos pequenos, sem quase chance de sobrevivência. Não havia contraceptivos. Era preciso usar a tabela menstrual, fato que nem sempre a mulher se dava conta e aí era outra barriga a merecer os cuidados do casal. Não era incomum famílias com mais de dez crianças.
O tempo corria lentamente. Foram muitos os dias em que tiveram de alimentar as crianças com pão e água. O casal não raro ouvia dos filhos queixosos que a fome apertava na barriga desnutrida. A dor da mãe corroia os mais íntimos refolhos d'alma, mas ela tinha que continuar cuidando e zelando, enquanto o marido acordava bem cedo para ver se o dia lhe seria ou não favorável.
Ainda em Minas Gerais, o primogênito foi acometido de meningite, seguida de outra de igual teor. Passou a ser dependente direto dos pais. Manoel arrumava curtos biscates de servente de pedreiro. Vez ou outra achava outras tarefas, onde lhe permitia levar os parcos recurso ao lar. Freqüentemente ouvia queixas de estranhos, em razão da deficiência do filho, numa época em que as leis eram complacentes. Ouvia tudo e seguia adiante, calado como sempre.
Certo dia, já cansado biscatear aqui e acolá, o companheiro de Clemência encontrou um velho amigo de Belo Horizonte, que vendia picolé. Tratava-se de Antonio Paixão, amigo de longa data, que passou a lhe incentivar nessa profissão, que lhe parecia estranha. Nunca antes tinha pensado que pudesse se enveredar nessa tarefa. Achava que pudesse galgar melhores funções.
— E aí Manoel?
— A vida tá dura, não acho emprego!
— Pois é, o picolé tem dado o sustento para a minha família! – disse com firmeza o amigo.
Em princípio ficou renitente diante do trabalho indicado pelo amigo. Foi difícil o recomeço, que se mostrava sombrio. Não era esse seu ofício, mas o tempo lhe foi mostrando fidelidade. O encorajamento foi proporcional ao instante em que o novo ofício lhe foi apresentado. Com o tempo foi ganhando a confiança do novo empregador, que via naquele novato esforço necessário para prosseguir na tarefa.
A medida em que prosseguia no trabalho, a confiança de novos fregueses foi se avolumando. Diferente de outros vendedores, Manoel sempre prezou para vestir jaleco branco, mesmo sem que lhe fosse ordenado pelo patrão, costume que relembra à época em que trajava terno, sobretudo na juventude glamorosa das sociedades.
Já com a idade avançada, a aposentadoria se apresentou como novo horizonte, cuja renda lhe pudesse auxiliar na criação de todas aquelas bocas famintas. A mulher nunca teve renda, cuja dedicação era a benefício dos filhos, resolvendo as questões domésticas e os estudos, enquanto o marido seguia ao trabalho, encorajado pela necessidade imperiosa de sustentar outra família.
Depois de vinte anos, a ruptura do primeiro casamento foi oficialmente decretada, restando ao ex-marido a crítica de algumas filhas, que nunca aceitaram a situação da mãe e a nova ligação do pai com outra mulher, mais o nascimento de novos irmãos desconhecidos. Nunca se aproximaram do pai, antes vendo a mãe como única guerreira para com os cuidados domésticos.
Certo dia alguém lhe orientou para dirigir-se ao INSS, pois o filho especial tinha direito à pensão. O resultado positivou-se no oferecimento do Instituto Previdenciário, que reconheceu a doença. Agora eram duas as aposentadorias, mas de pequeno valor. Mesmo assim, o picolé tinha de ser vendido para o complemento das despesas dos filhos que cresciam.
A alegria não durou muito tempo. Baseando em legislação mais antiga, o INSS achou por bem romper os benefícios ao filho especial, que depende não apenas de atenção e cuidados, mas de medicamentos não ofertados pela saúde pública. O que parecia solução era mais uma travessura que o destino aprontava nesse grande e sofrido homem, que jamais deixou de travar o bom combate, diante dos caminhos tortuosos, por mais difícil que fossem, ou mais sombria a forma como a vida se apresentasse.
Hoje corre um processo judicial, levado a efeito por procurador federal, funcionário que trabalha a favor do necessitado, visando restabelecer os benefícios do filho incapacitado para o trabalho. Enquanto isso, o filho da mulher de vida segue na venda de picolé, já tendo problemas de locomoção, vitimada pela artrose e de mãos que tremem ao fazer o troco ao freguês. Afinal, é a chegada dos oitenta anos de vida do bebê que seria lançado nas águas turvas do Rio Doce, não fossem as mãos do destino, que lhe queria vivo e atuante.
Ao recebê-lo em minha casa estranhei que Manoel era auxiliado por muleta na mão direita. Disse que o carrinho serve como ferramenta, a lhe amparar o corpo cansado, mesmo quando o empurra sobre a areia fofa da praia de Camburi ou ao longo da praia, seja durante o longo verão debaixo de sol aterrador, ou sob o vento sul no inverno chuvoso.
— Meu medo é a partida de Clemência, que nunca mediu esforços na educação dos filhos e na proteção que ela a mim dispensa! Na verdade, tenho medo de ficar novamente desamparado, agora que meu corpo pede repouso, sem que eu ainda possa repousar sem a preocupação do filho especial, que aguarda meus cuidados! – disse sem alterar o semblante sereno.
Curioso é que não se encontra em suas palavras qualquer queixa ou azedume. Diante da baixa remuneração, não há desagravo diante dos que recebem polpudas aposentadorias, lastreados sob o abrigo cauteloso do governo, muitos dos quais reclamam e furtam os cofres públicos em busca de enriquecimento ilícito.
Esse homem de destino cruel nunca teve atenção de ninguém nem nunca aceitou subtrair valor que não lhe pertencesse. Como pode alguém que nunca teve educação, poder ter o caráter de ensinar a moral, tão esquecida nos dias que correm?
Manoel passou longe das escolas. Jamais teve a oportunidade de ser amparado por mãos protetoras ao educandário, que hoje muitos se mostram arredios e evasivos. Como entender a criminalidade de quem esteve próximo, sem se contaminar pelo banditismo
Estamos diante de alguém com educação vinda do berço? Qual berço senão a extensa via pública, que nunca lhe ofereceu o acalento em cama acolhedora? A educação parte de lares bafejados pelos favores da fortuna, diria o intelectual. Então como explicar o crime nos seios de famílias afortunadas?
Manoel é o que podemos entender como quem se contenta com a preciosidade da posse do necessário e na crença do futuro, quando transparece acreditar em algo que lhe espera além da vida, como a lhe premiar por dias incertos e noites sombrias, a lhe agasalhar o corpo informe e dilacerado pelo tempo.
Longe de ser acariciado por mãos tenras da mãe, que lhe desejou a morte, segue a vender picolé, para que um dia possa descansar seu corpo castigado pelo tempo, mas não agora. Não antes de partir na frente da companheira zelosa, que jamais se alterou nas vias lamuriosas da reclamação.
Terminada a coleta de informação em manhã de domingo, pude ter a oportunidade de levar o nosso herói até sua residência, no mesmo município que lhe amparou, quando veio de Minas Gerais. Trata-se de humilde residência acariciada pela sombra fresca do frondoso pé de manga espada, no pequeno quintal murado.
Manoel não traz a tristeza no rosto envelhecido pelo tempo. Não teve o estudo que pudesse lhe transportar a espaço laboral festejado. Entretanto, não há lamúrias a inflamar-lhe o ânimo nem palavrório de inconformismo. Segue o nosso herói a vender picolé nas ruas de Vitória, tentando completar a renda familiar.
“Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes; porque ele mesmo disse: Não te deixarei nem nunca te desamparei. O Senhor é meu Pastor e nada me faltará.” – eis o semblante que transparece no olhar desse que sobreviveu e que trabalha todos os dias na venda de picolé.
*Alguns nomes foram alterados, no propósito de não trazer desconforto.